Sunday, June 28, 2009

Notas sobre a morte dum Ícon

É oficial. Com a morte de Michael Jackson mudámos de paradigma.
25 de junho de 2009. Ia de viagem do Fundão para Lagos com o meu pai. Estava nesse dia a fazer a segunda parte de uma viagem que tinha começado no Porto para passar os últimos 4 dias das minhas férias na praia. Ainda não era meia noite quando o meu pai recebeu uma mensagem que eu li para que ele não desviasse os olhos da estrada. Da minha mãe: "notícia de úlitma hora, morreu michael jackson de ataque cardíaco." Ambos percebemos algo forte. Um marco. Entre silêncios fomos encaixando a notícia e não ouvi as piadas que o meu pai fazia normalmente sobre figuras populares (Michael Jackson, Herman José, só a título de exemplo...) Foi um daqueles momentos em que a nostalgia chegou com a cadência que lhe é característica. Uma coisa terna, humana, calma. Uma paz lenta e conclusiva. Telefonei a alguns amigos, e mandei mensagens de telemóvel. Muitos já sabiam, via TV e facebook. Tirámos o CD e sintonizámos uma a uma todas as estações que apanhávamos. Todas continuaram a programação rotineira como se nada se tivesse passado. À hora certa foi relatada a morte do artista. Morreu o rei da cultura Pop (Pop vem de popular, certo?).

Photobucket

Pergunto: Alguém quer um sucessor?

"A pop morreu." Prevejo com arrogância suficiente que seja isso que vão atestar quase todos os filósofos/musicólogos/CEOs de majors/politólogos, apenas para descobrirem (passado uns anos) que afinal não tinha morrido.
Não morreu, mudou.
Ao mesmo tempo que ponho isto online, sinto um exército deles atrás dos ecrãs, desatentos ao que digo. Uma fileira deles preocupados em saber porque é que as vendas caiem e os concertos sobre os quais escrevem apenas têm a consumidores alheados da nova morfologia da comunicação. Um batalhão de críticos a juntarem farrapos para compor a mortalha da Pop. É triste, porque a Pop não morreu. Transformou-se rápido demais para se compatibilizar com os seus aborrecedores discursos sobre as viagens às lojas de música e as idas aos concertos de milhares de pessoas. Os que construíram o mainstream português vão dá-la como morta por muitos motivos, mas a principal razão pela qual vão dizer que a Pop morreu é porque não a veem. A Pop adquiriu contornos tão diferentes que eles já não a reconhecem mesmo que estejam em frente aos seus olhos. A cena é que não é noticiada depois do sinal horário. Não passa à hora certa na rádio, nem na TV.
A Pop já não precisa que lhe abram as portas em horário nobre. O que a Pop precisa é que os que construíram o mainstream português (é do Porto, de Portugal, que escrevo) voltem às faculdades, às escolas e gastem os seus honorários numa licenciatura actualizada). Ou que continuem na mesma, preocupados com formatos museológicos como a rádio e a TV, porque a Pop por aqui, no meu bairro, está de boa saúde e recomenda-se. O paradigma mudou e já não é à hora certa que é instituída a mudança.

Tuesday, March 10, 2009

Novo Manifesto

Mesmo sabendo que o Porto é um local pouco cosmopolita, onde o trabalho de qualidade está a saque a partir do momento em que é publicado, não me conformo com a noção de que a pobreza e a falta de trabalho reservada aos novos criativos portuenses, faça do canibalismo reflexo um modo de adquirir visibilidade.
Por isso num contexto potencializador de consensos-light, onde a novidade é olhada com estranheza e desdém, e onde proliferam revivalismos bafientos e manifestações de liguagens inócuas, tenho de re-acordar o fascínio sobre o que rodeia uma pessoa e estimular a interpretação pessoal e o pensamento independente.
Vou tentar honrar e continuar a produzir esta força criativa que tem sido vector orientador da nossa história da comunicação.

PhotobucketPhotobucketPhotobucket

Saturday, November 15, 2008

IDENTIDADE CORPORATIVA E AUTORIA

Normalmente os designers são técnicos. Mas poderão ser culpados pela falta de originalidade nesta situação?
Eu, como jovem designer, sirvo quase sempre apenas para corresponder às expectativas do cliente. Se o cliente quiser um logótipo como o da concorrência, por exemplo, eu posso dar-lhe isso. Se o cliente não disser que não, é porque quer mesmo ter uma imagem parecida com a da concorrência recusando uma potencial individualidade da sua marca em prol dum conceito qualquer imaginado para outra empresa. Aí, como designer tenho menos trabalho criativo, investigo menos, divirto-me menos, chapa cinco serve. O cliente fica satisfeito mas com uma coisa sem um jeito apropriado. O panorama continua igual mas maior.
Então e se os clientes gostam de comer mal, que mais se há-de fazer?
O cliente é arroz de pato, suponhamos: Invento e preparo uma bela receita para servir ao cliente um arroz de pato divinal e ele diz: -Está muito fixe, mas agora quero isso com lagosta. A empresa dele até é arroz de pato, mas se ele se vir como uma lagosta e teimar em misturar os ingredientes, acaba por servir um prato intragável aos clientes dele.
O pior mesmo é quando o cliente é mesmo um arroz de pato com lagosta. Se tento ser claro, ele raramente gosta de se rever. Mas quem sou eu para lhe dizer que está a tentar o negócio errado? Nessas situações mais vale dizer logo: -Não gaste já em comunicação, gaste antes em investigação. Posso passar por arrogante, mas também pode correr melhor.
Em condições excepcionais, um criativo competente deveria estar à vontade para poder aconselhar o cliente a mudar de estratégia. Se o cliente não ligar à sua opinião, o designer pode sempre tentar fazer o melhor que pode. E o melhor que pode está muitas vezes limitado pelo que o cliente quer.
A superação das expectativas que o cliente tem para a sua imagem é tão impraticável como o ficar aquém das expectativas do cliente. Enfim, não são as expectativas do cliente. E ponto final. Tristemente não costuma servir outra coisa senão o esperado.
É assim que funciona quase sempre o mercado. E por isso é que o design está em crise. Porque os clientes estão, sem saberem, em crise de identidade. É nessas alturas que pode dar jeito um autor. Alguém que saiba como construir uma mensagem, uma atitude, até mesmo uma linguagem. Convém realçar que autoria não é aqui sinónimo de fazer sempre a mesma coisa mas sim de dominar completamente o processo de comunicação. Uma agência pode ter autoria também.
O método de criação de uma linguagem só pode ser posto em prática por alguém que saiba da poda. Alguém que não tenha pudor em usar uma Comic Sans para um cliente Comic Sans. Que não tenha medo de dizer coisas más porque a linguagem não é só feita de coisas boas. E são poucos os audazes, normalmente desempregados.
E como se essa escassez de criativos com críticas construtivas sólidas não bastasse, encontrar um cliente capaz de tomar um atitude de risco, um cliente com um espírito autocrítico, é quase impossível.
O mercado ganhava com essa frescura. Ganhava limpeza, claridade, facilidade de entendimento e beneficiava ainda de uma nova atenção por parte dos potenciais consumidores.
Por este andar, não vai ser tão cedo. A mesma razão que impossibilita os designers de tomarem conta do processo, é aquela que os livra da responsabilidade criativa. Porque antes de enriquecerem o panorama visual, os designers precisam de comer. O que acaba por acontecer normalmente é que depois de comer, a preguiça apodera-se do corpo e da mente e puf, adeus ideia fantástica para mudar o mundo.
Pode demorar alguns anos até que alguém confie no trabalho do designer e entretanto ele vai compondo a mesa com arroz de pato com lagosta.
Concluindo: os designers não podem ser responsabilizados pelo acto criativo a partir do momento em que não considerados pelo cliente como autores da mensagem. Nesse momento, se o designer lança o documento final em condições de ser impresso, com a aprovação do cliente, desde que não ponha em causa a saúde e a liberdade de ninguém, tem o seu trabalho cumprido sem nenhuma culpa pela pequena merda que acabou enviar para o disco duro da gráfica. De uma vez por todas, os designers que não são interpelados enquanto autores, não são desculpa para a incapacidade que os clientes têm em se desprender do processo que o designer deve conduzir (esse processo é mais conhecido entre nós designers como Design de Comunicação).
Eu bem sei que o clientes são os primeiros donos do trabalho, mas felizmente para nós designers também são os últimos.

Monday, May 26, 2008

Um texto sobre as minhas coisas.

Têm-se escrito algumas linhas sobre o meu trabalho. A partir delas tenho vindo a reflectir de outro modo sobre o que faço e chegou a altura de organizar as ideias num texto. Vou tentar falar um pouco sobre um caminho recente que, perceba-se muito bem, não percorri sozinho. Vou também escrever um pouco sobre as razões de se conseguir estar na ponta da lança antes mesmo atingir o alvo: O segredo é muito simples. Quatro coisas: Respeito pelos mais mais desrespeitadores, muito respeito pelos mais desrespeitados e muitos trabalhos de casa.

Como disse André Sousa na Conferência Sobre Nova Emoção em 2006: "Saída da integração de Portugal na União Europeia, surgiu no grupo" (e somos para aí uns cem) "a noção de pertença a uma comunidade". Isso está intrínseco à nossa geração. A dimensão da cidade, no meu caso o motivo aglutinador da FBAUP, permitiu que vários grupos interligados por muitas pessoas se juntassem recorrentemente para discussões, debates, eventos, ataques e defesas. Ao contrário de Lisboa, no Porto as pessoas (pelo menos no meio da FBAUP) reagem com naturalidade ao confronto e à frontalidade, por mais desbocada e impertinente que seja uma deixa. Como me disse o disse um dos meus grandes mestres, Mário Moura (The Ressabiator): "Se uma discussão não for acesa, não vale a pena." E nessas discussões cometem-se erros que servem o propósito da discussão, crescer a tempo e horas.

Na minha opinião tudo isto tomou curso em tempo próprio para permitir que o Porto organizasse cinco anos antes do Grande Mundo, todo um conjunto de referências estéticas que já vigoram hoje em dia. Não tenho receio de designar o Porto como uma das cidades mais influentes no panorama internacional, por dois motivos principais, temos (porque os desenhámos) documentos que o comprovam, e porque estes documentos (posters, textos, músicas e outras obras) foram publicamente afixados para uma rede democrática, moldada pela desautorização e onde se desenvolvem e desenvolveram dos trabalhos mais interessantes da última década. Para mim Portugal, e principalmente o Porto, funcionou como microclima, óptimo para a criatividade. Eis o meu como:

No meu caso, a entrada para a faculdade despoletou um crescente espírito inconformado com a suposta ausência de história de arte portuguesa. Por comparação com as situações socio-culturais das outras cidades foi fácil perceber que a inscrição na história não se fazia sem vontade. E por análise de momentos históricos anteriores, foi simples compreender que é sempre tempo de abdicar da perspectiva desconfiada sobre as revoluções tecnológicas em curso.
Na internet implementaram-se com vigor nos 00's grandes novidades e uma essência de DIY (Do It Yourself) impossível de ignorar. Hoje, a meu ver, o designer contemporâneo já respeita e idolatra o design do povo. Porque é também mais simples tirar conclusões de acções espontâneas e menos educadas do que de acções controladas.
Assim, o designer deve por seu lado tentar entender um conjunto de opções do Outro para melhor desenvolver o seu trabalho. Por outras palavras ainda, penso que um bom designer de comunicação pode ser tudo menos iconoclasta. Que deixe fluir o que não lhe pertence e conclua "do ar" das opções inconscientes da maioria das pessoas. Essas opções que marcam uma época, são o fruto da necessidade, e existem porque não estão limitadas à regra. Este espírito não existia na Holanda (país de rico de design demasiado estruturado para admitir o caos do FVM (Faça Você Mesmo)) há 3 anos atrás, altura em lá estudei durante seis meses e do qual falo por experiência própria.

Devo agora diferenciar a opção inconsciente/ingénua da opção estética obrigada. Essa deriva da ditadura das majors de software. Do mesmo modo que se pode influenciar um trabalho duma atitude menos consciente, também o designer (tanto como o não-designer), se pode render com simplicidade crítica e generoso reconhecimento do trabalho dos programadores das majors ao que se chamam os Presets. Os presets são as ferramentas estéticas dos consumidores passivos. Os consumidores passivos (estão em vias de extinção nos países desenvolvidos) oferecem poder de compra. Como referido no parágrafo anterior, mais importante do que o poder de compra, para o design das coisas, os consumidores passivos transparecem as necessidades do mercado. O modo como usam as mais recentes ferramentas criativas (quais lápis de cor! agora é hardware e software, gadjets e widjets) constrói a actual paleta de atitudes para o designer de comunicação.
Essa paleta de atitudes está sempre a mudar. É isso que torna o objecto desenhado de acordo com os movimentos da massa, mais valioso. Um telemóvel antigo é de facto, para mim, um documento valioso. São notas de vida.

Estes são princípios e observações que normalmente regulam a minha actividade e não quero deixar de os publicar numa altura em não cessam os ataques e, para grande felicidade minha, já vejo públicos comentários bem positivos sobre o meu trabalho. :) Aqui fica um abraço forte a todos os meus amigos que me têm ajudado a compreender o mundo como uma coisa nossa.

Sem mais assunto de momento deixo os meus melhores cumprimentos a todos os se deram ao trabalho de ler este texto, agradecendo de antemão toda a atenção.

Até breve, por aí,
João Alves Marrucho

Sunday, May 18, 2008

É no Porto que vivo e é lá de dentro que escrevo.

Se eu quisesse escrever um texto sobre o panorama artístico do Porto e não me apetecesse falar nas galerias e na programação institucional (ou de programação a modos que tendenciosa e virada para si própria) escreveria qualquer coisa assim:

Photobucket

Panorama artístico do Porto, sinto muito porque sinto que não existe nada dessa dimensão. Depois da integração da maioria dos jovens do Pêssego, do Olímpico, do Senhorio num mercado de trabalho, a galeria do Jornal Universitário do Porto é bem capaz de ser a nova excepção porque uns amigos das belas artes decidiram tentar programar o espaço desde há cerca de quatro anos. Mas também está a acabar. Eles programaram-no sem critério algum que não fosse o da maioria decide e o da lista de espera, com um mínimo de seriedade para afastar as bocas mal intencionadas. E, imagine-se, resulta! É por estas e por outras que cada vez mais acho que os artistas portugueses em bienais deveriam ser escolhidos por SMS. Com direito a publicidade institucional mais regrada que a política, tipo €500 para cada licenciado/artista/credenciado para fazerem publicidade e 5 minutos por ano na RTP2. Ou talvez não… Isto é mais falar por falar. Ou por ver entrar em falência um dos orgãos vitais do passado do nosso corpo social. Aquele que garantia raros momentos de beleza. Hoje os sites de uploads de fotografia, vídeo, animação, curiosidades, enfim, a NET 2.0 encaminha-se para um sentido pro-criativo e a manutenção da sanidade mental da população parece-me estar assegurada… até mais ver. Porém, este ritmo de educação visual, creio, dará, dentro de poucos anos, o que passado uma década será apelidado do pior movimento visual de todos os tempos, O Lixo do Povo. Detritos visuais com potencial comercial.

Peço alguma compreensão aos meus amigos que trabalharam e trabalham arduamente nas chamadas artes plásticas que por agora designo como do foro académico. Este texto não visa, de todo, formar-se como um ataque a colectivos ou a pessoas. Quero ressalvar desde o início que tenho o maior dos respeitos por quem hoje rema contra uma maré de tendências e sub-tendências do mercado. Todo o sentido irónico, cínico, mais ou menos humorista que pode ser subtraído deste texto, incide sobre uma série de princípios da Arte, que me parecem errados.
Antes de publicar este texto conversei com um amigo que me disse que como não me estou a especificar em Arte Contemporânea não tenho ferramentas para pensar a natureza da Arte. Não obstante, o faço, porque me parece que por comparação com outras disciplinas e campos de acção, posso chegar a conclusões tão válidas como as de quem se embrenha no novelo do discurso.

É no Porto que vivo e é lá de dentro que escrevo.
Numa cidade pobre e velha não tem havido espaço para que grandes criativos se imponham. As novas indústrias, como as do lazer, tecnologias de informação, transportes, multi-média, não florescem porque o capital está trancado em famílias conservadoras que, em laivos de liberalismo burro, acham que um tipo tem que ser homossexual e pintor para ser um bom artista.

Photobucket


Além das opções sexuais para mim há duas posturas gerais que um artista pode tomar. Uma é envergada pelos os artistas que acham que toda a gente tem o seu quê de génio. Estes compreendem que os criativos para se inserirem de modo natural no mercado devem estar muito mais juntos da prática desportiva do que da filosofia e da política (sem nunca esquecer a ética da criação, digamos, o fair-play). No Porto também são conhecidos como desempregados criativos. A outra deriva directamente da academia. Estes, por defeitos de formação da Faculdade de Belas-Artes da Universidade do Porto, abdicam da transparência da comunicação e optam por vender um enigma a 5000 euros a vender uma solução por €2,5. Algumas divas funky das artes clássicas que são estudadas (como as da instalação e da video-arte) ainda servem os panos de fundo para uns passeios. Mesmo assim nos dias de sol a malta já prefere a praia.

Já sabemos que um dos mercados não espera que apresentemos soluções. Mas ainda não sabemos se existe mercado para a primeira postura de que falei.

Photobucket

Vejamos então os desempregados criativos como pessoas que têm jeito para detectar problemas e para propor modos de os resolver (nem que seja temporariamente). Não me parece que no Porto já haja infra-estruturas com credibilidade e capacidade para os acolher. Tem que acontecer uma mudança. As agências de publicidade são a coisa mais próxima da variação mercantil que deve acontecer. Na música por exemplo, os portugueses também têm delegado por norma as soluções práticas nos promotores de eventos e agentes. Existe uma explicação para esta norma: escolhendo artes clássicas que levem anos a fio na especialização não nos podemos afastar das rédeas hierárquicas. Como artistas, depois de optarmos por aprender mesmo a tocar violino (ou CSS/HTML/Action Script e Java Script), para estarmos libertos dessa grande maçada que é o ter que pensar em problemas banais (como o de saber qual é o melhor dia do mês para marcar um concerto), perdemos campo e capacidade de acção.

Por isso:
Hei és artista e os teus amigos estão virados para os seus umbigos? A sério? Então esquece isso e vem daí fazer cartazes e vídeos para as exposições deles, trabalhar em estratégias que tornem os produtos mais excêntricos em sucessos de vendas, vem policiar direitos de autor, ou projectar um novo edifício para concertos multi-média, …bora registar patentes. É aí que surge um imenso novo mundo de oportunidades de trabalho. Intermediários: uma espécie de parasitas que resolvem problemas quotidianos.

Photobucket


O Porto não dá nada disto. Os artistas com quem cresci têm vindo a baixar os braços e, pode ser uma noção errada minha mas parece-me que estão a desitir de tomar as rédeas do coche orientado-o no sentido nosso. Quase parece que deixaram de apresentar soluções e mesmo continuando bem intencionados, foram entrando em mercados a que eu não acedo por falta de capital. É que eu pensava que a revolução já estava a acontecer e não arranjei trabalho por ficar à espera do futuro (que bate o pé e não se apronta a tempo). Enquanto se espera, os artistas, têm sempre que fazer, e quando se não está a realizar um trabalho encomendado, pode-se estar a reflectir sobre a disciplina.
As coisas tendem para o equilíbrio, eu sei, mas o Porto, no meio do terceiro mundo e da Europa lisboeta, saturada e desorientada, está muito enervado por não conseguir sair da merda em que está. Aponto os dedos aos que nunca conheci mas que sei se passeiam por cá. Os que em Agosto, no Natal, na Páscoa e no Carnaval vão de férias. Esses que vão muitas vezes embora da cidade que fica para os pobres coitados que se assaltam entre si, ora dá cá aquela sala de espectáculos ora toma lá o comando da TV. É nas férias de nós próprios que mais nos vejo em qualquer comparação com uma cidade dum país saído de uma guerra civil. Culpa assente numa camada social com poder económico porque este marasmo vem da falta de coragem de quem pode investir e mudar as coisas. Enfim, a maior parte dos ricos do porto são uma cambada de invejosos que estouram o guito em multinacionais como a Ermenegildo Zegna ou a Porche. Forretas para os artistas de cá, e é por isso que a cidade está o que está. Sem uma indústria criativa de jeito. "Os bons fogem." É um cliché dizer isto sobre os emigrantes, mas ninguém os pode censurar porque ninguém deve ser testado desta forma. Acho que quando se tem capacidade de trabalho, visão, garra e talento é deveras ingrato ficar à espera tanto tempo de algo que não pousa no Porto. Uma espécie de presente europeu, era o que eu queria. É tão injusto para Portugal, porque Portugal precisa muito do Porto.

Friday, April 11, 2008

Serifobia

Agora Sem Pernas Se Fizer Favor

O designer gráfico enfrenta um novo obstáculo na cada vez mais aberta, mas nem por isso mais exigente, esplanada visual. A meu ver estamos perante um cataclismo visual eminente. Os designers preferem dar voz aos conhecimentos sobre microtipografia do cliente do que perder aquela sexcena de euros. As associações de designers não mexem uma palha para nos defender, e mesmo informar, porque há escolas que não ensinam isto aos alunos. Não é essa a minha função mas espero que este texto sirva para esclarecer muitas dúvidas que parecem pairar, mesmo dentro da própria comunidade de criativos.
A trabalhar num atelier já tive de ceder à vontade que o cliente demonstrou aos meus patrões. Um outro tema bem pertinente seria um pensar sobre uma legislação específica sobre os concursos para criativos, arquitectos, designers músicos e outros artistas. Fica para outra oportunidade que tenha para defender e integrar saudavelmente o design e as outras artes num mercado liberal que se tem tornado sujo e auto-destrutivo por negligenciar a riqueza inata às disciplinas criativas
Sinta-se à vontade para transcrever e citar este texto, e enviá-lo ao seu cliente para justificar uma opção sua. Peço-lhe no entanto alguma seriedade na citação. Por favor faça acompanhar qualquer excerto que retire deste texto, dos devidos créditos e formalidades, (Marrucho, João Alves, acedido no dia __(o dia mês e ano em que acedeu)__, http://www.jamtexto.blogspot.com, Portugal 2008,). Ao que interessa:

Acontece que hoje em dia, a grande maioria dos clientes recusa qualquer abordagem tipográfica onde se vejam aqueles pequenos tracinhos que costumam estar nas extremidades das letras. A maioria dos clientes não tem noção da complexidade da disciplina que exercemos e entende um designer como um tipo que sabe mexer nuns programas de computador e enviar trabalhos para as gráficas. Algumas empresas ainda conseguem evitar o habilidoso, e vão directamente à gráfica pedir serviço.

A não ser que se trabalhe para uma editora da indústria livreira, é muito raro quando aparece alguém que queira um tipo de letra com serifas (é assim que se chamam as perninhas). Muitos clientes, independentemente de fornecerem grandes ou pequenas quantidades de texto, pensam que a escolha tipográfica apenas se baseia em questões de gosto e estilo. Pior que isso, acham que têm tudo a ganhar quando interferem directamente no trabalho mais técnico. Não será decerto por maldade, mas antes por alguma ingenuidade: " -Caro designer, não quero letras com perninhas." E às vezes estão a dar um tiro no pé sem se aperceberem.
Pois então, imaginemos que a canção é o discurso, a banda é o atelier e o organizador do concerto é o cliente/editor. O cliente/editor não deve dizer: "Desculpem mas ali têm de tocar antes com um sintetizador em vez do piano." — ou — "Acolá toquem um sol em vez do dó. Ok?"
Não sendo eu contra democratização do design, pelo contrário, penso que a acessibilidade aos métodos de construção de objectos gráficos não será directamente porporcional à qualidade e à eficácia do design.

Este preconceito anti-serifa é certamente fruto da proliferação do Estilo Internacional (que sucintamente, para quem não sabe, foi um estilo que surgiu na Suiça em meados do século passado que nas suas bases tentaria uma universalização da linguagem) pela grande maioria das imagens corporativas ocidentais.
Assegurando um aspecto mais "técnico e profissional" à disciplina do Design, este estilo que usava grelhas ortogonais, tipos de letra sem serifas, com vincada aversão às expressões mais livres da ornamentação, tentou distanciar o design da decoração e das artes a que chamo por ora não comerciais.
A Helvetica é talvez a fonte sem serifas mais popular de todas e foi pretensamente usada dentro do espírito do Estilo Suiço como um neutro condutor da mensagem de cada palavra. Mas há que ter alguma atenção. A Helvetica não é, nem de longe nem de perto, neutra. É fria, impositiva, engraçada, elegante, sólida mas como não tem serifas, é difícil de se fazer escoar pela vista de quem procura passar de página. Hoje quando se aplica a um grande bloco de texto uma fonte como a Helvetica ou Arial, não está a ser-se imparcial, está a ser-se muito chato para o leitor.
Naturalmente, a redução do conteúdo não se faz sem perda de informação. A forma é também conteúdo e funciona pelas mesmas leis. Less is More, é meramente poético.

A serifa não é só decorativa, é um elemento tipográfico com função. Alguns investigadores dizem que surgiu porque os romanos queriam equilibrar aglomerados de letras preenchendo os espaços vazios, outros porque simplesmente era mais bonito. Na minha opinião não é decididamente uma moda: Havia de ser bonito... o desenhador de letras tipógrafo a pensar: ora bem falta aqui um toque de génio neste Y, deixa cá fazer-lhe uns torneados nas pontas.

E assim fundamento a minha opinião:
Existem obviamente situações em que a escolha de um tipo com serifas pode ser escusada. Quando se trata de texto com o propósito de ser reconhecido por máquinas (que ainda são arcaicas quando comparadas com o nosso cérebro), em aglomerados de palavras com corpos de letra grandes para anúncios que devem ser mais agressivos, em blocos de texto muito pequenos onde as serifas (por falta de lineatura ou deficiente capacidade de absorção do tipo de papel) se podem transformar facilmente em ruído visual, ou em ecrãs porque mesmo em corpos bem legíveis não têm resolução suficiente para reproduzir serifas para além de peças de Tetris (jogo elctrónico antigo) de três ou quatro pixeis. Acho que este encantamento recente pelas limitações das máquinas também faz com que se usem cada vez menos registos humanizados, e isto sim, parecem-me tendências de moda, interessantes, mas passageiras porque felizmente esperamos outras tecnologias.

Mas existem outras situações em que as fonts serifadas não devem ser recusadas como por exemplo em textos de leitura longos.
As fonts serifadas existem desde a invenção da tipografia e são descendentes directas, polidas e cuidadosamente estudadas da escrita manual. Uma das principais características da escrita cursiva é que por regra liga quase sempre as letras que formam uma palavra. As fontes não serifadas são bem mais recentes e desenvolveram-se sobre suportes que não permitiam interligação entre letras. A escrita cursiva tem também a vantagem e ainda é ensinada em muitas escolas por este mundo fora, porque não apresenta tantas dificuldades de aprendizagem, como a letra impressa (que tem letras espelho umas das outras como os qpdb).
O homem tem tendência para aprender sistematizando, agrupando elementos por semelhança, mas a comunicação verbal e escrita é demasiado rica para se poder limitar a estas leis. A variação ajuda a marcar diferenças e, consequentemente, a comunicar mais. Assim um tipo serifado encontra-se normalmente desenhado para que ao mesmo tempo que mantenha sugerida a ligação entre as letras, estejam ressalvadas as idiossincracias de cada letra.


Photobucket

Estes e outros pormenores dizem respeito à microtiporafia e não devem ser descurados na escolha de um tipo para um determinada função. Acho que não temos muito a ganhar por ver também perdido o estilo, a identidade e encanto que um tipo serifado ainda transporta. Um tipo de letra serifado é, regra geral, maduro, crescido, coeso e cuidado e a meu ver apresenta quase sempre particularidades deliciosas. Uma font sans serif pode ser útil, produzida em massa e pode ser aborrecedora.


Photobucket


A utilização das fonts com perninhas tem diminuido bastante em revistas e livros nos últimos 30 anos e como designer custa-me ver posta em causa esta rica e útil tradição da escrita. Deixo aqui uma última questão: porque é que as letrinhas pequeninas nos contratos com servidores de Internet vêm sempre em caixa alta (maiúsculas) e sem serifas?

Wednesday, May 16, 2007

A revolução está a acontecer durante o teu sono.

Comentário afixado no blog Whiteponycab de Isabel Carvalho!

"Ninguém tenha grandes ilusões: não se sobrevive muito tempo nesse estado de graça e "reinventar" a postura alternativa exige um cada vez maior golpe de asa. Quem se achar à altura ou encontrar em si a bravura, by all means, boldness in the attack. "
Jack Lecrak

Aqui estamos para isso amigo.


"Olha quem ele é! Agora é que isto vai dar para o torto..."
Sim, sim... caríssimos amigos, sou mesmo eu... Qual João Fernandes? Qual Isabel Carvalho?! Agora sou eu. Para já podem arrefecer essa euforia e prestar atenção, se fizerem o favor, que eu quero falar.
Já há algum tempo que não dedicava tempo a textos, mas estas torrentes de comentários, são fenómenos raros e raramente me deixam indiferente. Esta então! É demasiado tentadora para deixar passar ao lado. Que grande público tenho... E como isto já está pela hora da morte aqui fica o meu contributo para acabar de vez com as participações, e para ao mesmo tempo propor um tempo indefinido de reflexão aos que me lêem. Para quem não me conhece, o meu nome é João Alves Marrucho, filho de José Albino Alves Marrucho e de Maria do Céu Antunes Martins, irmão de José Pedro Martins Marrucho. Sugiro um Google ao meu nome para saberem com quem se metem nestas andanças. Mas chega de introduções, e psst, tu lá atrás, se quiseres rir, conta aí a anedota para toda a gente se rir ou então sai da aula e deixa trabalhar quem sabe.

Então juntam-se à conversa sobre estas coisas e não avisam? Típico. No mínimo um e-mail pessoal! Antes o Zé Maia ainda me encaminhava, mas depois deixou-se disso, ele é contra a privatização da cultura e receia certamente que lhe apronte alguma em público. Já lhe tentei explicar que a cultura existe sem ser ordenada pelo estado, mas o homem teima em não aceitar o facto. Sem rancores. A sério! Fico mesmo contente por poder ler estas coisas aqui. Alguém comentou que a próxima geração de artistas portugueses se há-de insurgir contra a que por enquanto é documentada. Permitam-me então que a introduza, mas sem muito mais espectativas. Só o eterno presente o diz. Ante-ontem um dos poucos artistas que se prentende inserir de modo afirmativo nestas rambóias, durante um ensaio de campo para um filme sobre a minha pessoa, disse-me que andava a ler o blog errado. Só a muito custo lhe consegui sacar as indicações sobre como vir aqui parar. "-Faz uma pesquisa a Isabel Carvalho, logo em cima encontras. Agora não me lembro do nome do Blog, mas é dos primeiros." Num queria dizer o sacana. Típico. Agradeci. Ontem fiz noitada a ler atentamente todos os comentários e foi com base neles que redigi o meu.
Parece-me que a discussão, ao contrário do que foi escrito ali para trás, decorreu em tom mais do que aceitável. Por isso, pessoal, deixem-se piquinhices e admitam que a discussão vai num nível relativamente exigente.

Se bem me lembro a questão inicial era: O que significa ser um bom artista em Portugal? Significa no mínimo saber Inglês fluído, sem ironia. Verdade seja dita, nunca vi ninguém a queixar-se do Calgonit Power Ball com Protector Action e Protective Skin. Se é quadros e desenhos valiosos, implica-se... se é comunicação para massas, deixa-se andar. Isabel, para próxima quero isso em francês e com direito a uma Lap Dance. Ok? Dou-te dois euros e ficamos quites.

Apareceram algumas tentativas de resposta. Vou agarrar em algumas porque as julgo dignas de retorno e porque me permitem estabelecer um fio condutor ao meu discurso.
A Lígia disse:
"Não há meios termos, ou se resiste ou não - é a lei do mais forte, irónico darwinismo capitalista adaptado ao mundo das artes."
Apesar de realista, nesta afirmação admites com demasiada dificuldade a que me parece ser a solução mais viável para que possa continuar a existir espaço para as experiências artísticas nossas contemporâneas. A assunção do capitalismo liberal como amigo. Empresas de Arte. Estamos demasiado presos aos lugares comuns dos discursos sobre as "artes de ponta". Além destas descrições bem representativas, que tal pesarmos a sério sobre soluções igualmente integradas e realistas? Estamos num país paupérrimo e não nos podemos dar ao luxo de gastar muito com as mais finas artes.
"A diferença para outros países (...)é que tanto o Estado como os privados se encontram numa posição, e com mais vontade, de reconhecer e de apoiar os projectos culturais. Os apoios são em maior número e mais diversificados, em exposições, bolsas, residências artísticas, e um largo etecétera."
Quanto aos apoios privados, concordo que existam vontades e meios.
No entanto, neste tipo de discussões não podemos confundir vontade com poder económico assim com nunca podemos confundir cultura com Belas-Artes. Mas, Lígia, percebe-se onde queres chegar. O apoio às artes mais extravagantes na Europa, revela-nos facilidades para os artistas que lá trabalham, que também gostaríamos de ter.
Relativamente à acção do Estado: É óbvio que o Governo português tem que ter prioridades e, como é compreensível, a saúde, a educação, a acção social, as vias de transporte e comunicação de massas, podem ser consideradas mais importantes. Questões de sobrevivência... E se for necessário (espero sinceramente que nunca aconteça) cortar radicalmente todos os apoios aos museus e teatros para que quando estiveres doente e com fome possas ter um sítio decente, transporte ecológico gratuito, e uma estrada para lá chegar sem buracos, ao lugar onde te recompores. Ou tenhas internet gratuita em todo o lado, não preferirás abdicar das exposições e das peças de teatro financiadas pelo contribuinte? Afinal de contas, não são os impostos dos actores e utentes dos teatros (amigos dos actores e dos encenadores) que pagam as contas da luz do Teatro Carlos Alberto. São os dos nossos papás que nem 20 dias de férias têm para ver a 365 peças de teatro por ano. Os tempos mudaram e a cultura com eles. Acho que isto pode mesmo ser considerado um pensamento de direita pelas definições que por aí aparecem mas, caramba, é por direitos básicos. Ou é só impressão minha? Eu fui formado nas Belas-Artes e sei bem o que custa apresentar esta cara de aparente arrogância na recusa das ajudas. Assim, nos próximos tempos, o nosso papel poderá ser mais virado para a intervenção com fins lucrativos (sem esquecermos o bem que podemos trazer ao ambiente que nos envolve) do que para uma subsídio-dependência que garanta liberdade às nossas bizarras representações e apresentações escanifobéticas.

Para ver se estava a dizer algo com sentido acabei de colocar a seguinte questão a uma amiga com que estou agora:
Se hoje vivêssemos numa ditadura cultural global e fosse exigida à população mundial um voto único e acerca da literatura (Letras a título de exemplo), em qual das seguintes opções votarias:
1ª—Fazemos desaparecer toda literatura que não seja manual escolar, manuais de instruções, ou textos sobre suporte digital, (entenda a erradicação completa de todos os livros que não sejam pedagógicos e a desactivação total da Internet)
2ª—Ou fazemos desaparecer todos os livros que sejam manuais escolares, manuais de instruções e a Internet?
A resposta dela (foi a segunda) é representativa do egoísmo que as classes instruídas tentam esconder, cada vez com mais dificuldade (porque o Saber ainda anda de mão dada com o Poder): "Obviamente que preferia que mantivessem o livros que não são manuais escolares, manuais de instruções ou que não estejam na internet!" Fiquei triste porque ela prefere ler o seu livrinho do Perec do que garantir que a aprendizagem da leitura seja feita mais facilmente. Artista de formação... Licenciada dentro em breve... Esse impedimento à livre reformulação cultural, é em meu ver tão mais perigoso do que qualquer ideia de direita referente à auto-sustentablidade das artes! Preferir os Snoopys aos blogues! Como pode ser tão óbvio?
Isso significaria um total atraso na evolução da nossa sociedade e não podemos ficar presos a modelos tão arcaicos.
Aproveito para afixar e tentar responder à pergunta da Aida: "Achas que os artistas querem mesmo trabalhar, ser “artista trabalhador”, a tempo inteiro?" Eu acho que não estão muito para aí virados, porque a educação artística portuguesa pós 25 de Abril armou-se de clichés de esquerda, fechou-se em copas e, então, não acreditam muito nessa solução. Pensa-se sempre que é um esquema estranho que só para atingir riqueza pessoal velozmente. Já gozaram os gajos do Grande Prémio de Desenho "Crie a sua própria empresa", mas contas feitas, ninguem tem outra saída.

A solução Holandesa?
"...a Holanda tem um contexto artístico incrivelmente dinâmico, com espaços geridos por artistas, residências (estas de extrema importância para os contextos pois determinam um mobilidade e crescimento dos artistas) espaços intermédios financiados pelos municípios, ou fundos nacionais, fundações, instituições -- (não menciono galerias comerciais - sei - mas daí normalmente vem pouca inovação ou discussão para o discurso artístico - regra geral, não quer dizer que não haja excepções)..."
Eu também lá estive uns meses e achei tudo demasiado cor-de-rosa. E uma grande seca, mesmo. Voltei a Portugal porque ainda é bom poder evitar aquilo em que eles se tornaram, um país sem identidade alguma, com tudo organizado ao ponto de não precisarem de sair de casa para resolver os problemas com os amigos.
O exemplo MaqueDonaldizante, (eles próprios se figuram como campo de ensaio dos mercado americano) da Holanda apontou numa direcção que pode muito bem conter os princípios de algo positivo. No entanto falhou em muitos aspectos! A Neederladse Spoorwagen (CP lá do sítio), por exigência dum investimento público na arte, estampa réplicas de Mondriãs no interior das carruagens. Os problemas mantêm-se e muitos putos andam insatisfeitos por lá. Aqui Empresas de Arte precisam-se, dirigidas por artistas-comissários. Empresas de Arte precisam-se. Sem ironia alguma. Auto-suficiência precisa-se. Ainda exemplificando com a Holanda, é normal existirem, mesmo em pequenas cidades, "lojas" de aluguer de arte.

A questão das bolsas de investigação:
"Penso que o apoio às artes, ao trabalho criativo, estará mais perto de uma espécie de “bolsa de investigação”."
Olha que esta! agora!! Como pode ser considerado o processo artístico uma investigação, se raramente se propõe e, na maior parte dos casos, recusa mesmo chegar a alguma conclusão. E mesmo que o Estado caísse na nossa esparrela, como disse a Maria Assis: "Olhem o que está a acontecer aos nossos investigadores, a partir dos 38 aninhos estão fodidos, não há bolsas nem programas comunitários que lhes paguem o ordenado..c'est la vie, a sociedade tardo-capitalista é assim."
A meu ver, o significado, o papel e o resultado/obra do artista contemporâneo português não poderá contornar por muito mais tempo a profissionalização. Se queremos poder, temos que ter responsabilidade. A residência artística, por exemplo, será bem mais viável assim que os artistas percebam alguma coisa de economia, a partir do momento em que o artista contemporâneo português descubra que para sobreviver tem de produzir e viver dos rendimentos dessa produção. Se não encontrar modo inteligente e/ou belo de o fazer pode sempre dedicar-se aos galos de Barcelos coloridos com cores neon, e abrir uma loja de artesanato contemporâneo! Porque não? É relativamente seguro, garante algum retorno monetário, e fica bem em qualquer lado. No campo da música, funcionará às mil maravilhas, convidas um tipo de quem gostas do trabalho, dás-lhe guarida e um estúdio improvisado, e em troca, ele dá um concerto, fazem-se uns trocos e deixa-te um álbum para venderes.
A dura verdade é que grande parte das tipologias de arte está a ficar em desuso. O que aconteceu à Ópera, não tardará a acontecer ao Teatro, e mesmo às Artes Plásticas se nós não admitirmos trabalhar fora dos formatos antigos.
Concordo em parte com o que o João Fernandes disse aqui: "Há uma falta de estratégia para a cultura por parte do poder político e cultural em Portugal, seja ele nacional ou autárquico. Uma das suas faceta mais visíveis é a falta de apoio aos jovens criadores em todas as áreas culturais." Mas deixem-me esclarecer esta falácia com que que o Diretor de Cerralves nos pretendeu seduzir. Uma das facetas mais visíveis dessa estratégia são os crescentes cortes orçamentais à cultura erudita. Olhe, João, a importância dada aos projectos relacionados com as novas tecnologias de comunicação, subiu drasticamente, nos últimos anos. Têm feito algumas coisas despropositadas, como o TGV, que nos leva a Madrid por 20 ou 50 euros em quatro horas, quando hoje já conseguimos ir e voltar de avião em pouco mais que uma hora, por 25 euros (low cost). Já agora, tenho quase a certeza que a Mafalda deve ler isto: Porque é que não dizes ao Ministro das Finanças para falar com o da Educação para inserir a disciplina de Introdução à Economia no último ano todos os cursos secundários, Artes, Ciências, Humanidades, Informática... Salazar, o grande economista, pior, o grande protuguês guardou as contas para ele, e 35 anos depois ainda saímos da escola sem saber o que é o IRC, ou como preencher um recibo verde! Sem ofensa alguma pessoal mas, caros amigos, é nesta a classe artística em que vivemos, dominante, mas sem acção que vá para além da Arte enquanto disciplina encerrada nas suas próprias possibilidades.

Sobre isto:
"O que vos preocupa não é tanto a visibilidade, mas antes o reconhecimento e a consagração. Ora perdoem-me que vos diga que considero que estas três questões deverão surgir como consequência natural da especificidade de uma obra, ou então de muito pouco vos servirão."
Caríssimo, desconhece o meu trabalho. Não o censuro, porque como vocemessê há muitos. Mas "is it so wrong to crave recognition"? Eu ando a exigir isso aos meus amigos e às pessoas próximas que usam o meu trabalho. Tem que ver com transparência. Ao contrário do que me parece ser a postura de muito boa gente, não lho peço a si, porque sei, não tem essa competência, e muito menos me parece apresentar a solução. "A cultura gerada em pequenos círculos sociais (marginalizados e punidos por essa expressão cultural) acaba por nos ser servida para consumo." E eu já estou farto dessa treta. Peço antecipação para que a sirvamos nós próprios. Ou pensa que quero uma canequinha ilustrada com as minhas engenhocas vendida por aí (post-imigração ou mesmo pós mortum). Congratulo-o por toda a atenção que tem dedicado à malta. Se calhar até é suficiente para o que gente quer. Uma salinha no Museu? Ou um pic-nic nos jardins da Fundação?
E já agora, não lhe posso deixar passar o seguinte comentário sem um reparo pessoal:
"fórmulas tão estafadas como o fanzine, a ilustração de vaga referência “underground”, a ironia grosseira sobre a arte, a performance que não adianta um chavelho a uma história da performance rica em situações de provocação sexual, política e estérica que as vossas parecem apenas caricaturar."
Não pense que os fazedores de fanzines estão preocupados com a brava história da perfomance rica em provocações sexuais, políticas e estéreis! A cena é que a fanzine é um formato barato! De execução rápida e para esta gente que nós hoje somos, escrever, fixar, publicar em suporte físico ainda é muito importante, como certamente o é para si. São os processos de auto-legitimação a que até as instituições como os museus recorrem. Ou não tivesse Cerralves metida na agenda editorial, aliás, na prateleira, de tudo quanto é ministro e figura pública.

"No entanto, as águas não deixam de estar turvas: perdoem-me que vos diga desde já, caros(as) artistas"
Pois sim. Pois sim. Mas cada vez menos.

"Com a experiência que tenho de situações semelhantes, asseguro-lhe que este meio não é o melhor para se manter uma discussão com interesse e relevância."
Isabel Carvalho
Pshht. Quieta aí senhora. Deixa aqui estar isto que está muito bem! E já agora o que é esta coisa?
"Tenho quase a certeza que estamos de acordo que mais espaços de exposição, diversos, com estruturas organizativas semelhantes às galerias culturais, aos Museus, aos Centros Culturais, aos espaços geridos por artistas, ou com novas estruturas, talvez concebidas por nós, seriam muito importantes para todos."
Parece interessante mas explica melhor por favor.


Algumas citações mais ou menos pertinentes e devidos comentários:

"Porque desvaloriza joão fernandes os "artistas locais" ao mesmo tempo (literalmente) que lança um livro (posição: 2007) com o selo de serralves sobre os mesmos?"
Lord Shaftesbury
O desvalorizar num sei se concordo, mas o livro será porque hoje a história se escreve em tempo real e é preciso documentar.

"...não me parece que um artista "alternativo" possa, por este título apenas, posicionar-se num jogo da glória moral. A contribuição que faz é de sua exclusiva responsabilidade e estará sujeita ao escrutínio do tempo como qualquer outra - em retrospectiva, apresentar-se-á em igualdade de circunstâncias com os "consagrados". Talvez seja ingénuo pensar assim..."
Jack Lecrak
Pois é ingénuo, sim senhor. E de novo repito, a história hoje escreve-se em tempo real, e se nós já pouco escrevemos sobre os consagrados, quem nos virá escrever?

"A liberdade que os espaços alternativos no Porto nos deram é preciosa e única.
Julgo que se está a marcar uma diferença significativa relativamente ao resto do país e da Europa."
Anonymous

"como em tudo na vida... há os que esperam por boleia e os que se fazem ao caminho. A nenhum destes agrada a opção do outro, mas isto só se torna um problema quando não há mundo suficiente para todos. How often do you want your fifteen minutes?"
Anonymous

"k 15 minutos?! aki ninguem ker 15 minutos? aqui so se ker melhorar as coisas e isso implica dizer, eu tou aki, eu existo, e logo torna-se necessario o uso da palavra visibilidade. akela k fica à espera no seu buraco caladinho bem k apodrecer so k nem um cão. nem fora sabeis ser!"
Mauro
Mauro! A metáfora é boa e didáctica. Num futuro muito próximo, toda gente pedirá 15 minutos de anonimato!

"Estamos na periferia da periferia, e temos consciência da nossa posição, no entanto não foi por isso que se deixou de fazer mais e de tentar o melhor. Provavelmente surgiu o momento de dizer que estamos atentos."
Isabel Carvalho
Mais que isso, chegou o momento de agirmos responsavelmente. A periferia está na moda, aproveita.

"vejo pouco discutir-se o papel e o lugar da arte, de uma forma pragmática. Não estou a falar de discursos estéreis sobre "o que é a arte?", mas sim do papel de uma arte comprometida e, principalmente, da sua eficácia. Porque a mim, sinceramente, é o que me preocupa."
Catarina
Finalmente a melhor arte está a passar a assumir o seu papel comunicativo e transparecer os seus processos. O ghetto ganha com isso.

Assim findo,
Parabéns a todos os que participaram nesta discussão.
Com os melhores cumprimentos,
João Alves Marrucho

Tuesday, January 9, 2007

Ainda concordo com o que disse em 2005

That's it! I need to relax... I'm going to Portugal.
Vêm de fora, fazem música e gostam muito dela. Ariel Pink e Panda Bear tiveram direito a 2 páginas no Blitz (honra nenhuma) e 2 horas no Passos Manuel. Pelo que li, não têm a mania das grandezas. Vêm de uma pequena editora dos States (Animal Collective) (têm a sua própria (Paw Tracks)) para andar em digressão por Inglaterra, França, Portugal. Acho que os Animal Collective também são uma banda... sei que para muitos lançaram um dos albúns do ano (estou a ouvi-lo agora e digo-vos que é muita marado! Mesmo bué da louco! Assim... tótil maluco! E muito sofrido. Uma curtição dolorosa...) Sei que os concertos no Porto correram mal...

Ariel Pink (na entrevista do Blitz era só um mas ao vivo eram quatro): A ideia, segundo fontes seguras, e digo-vos que não passam essa ideia quando actuam , é o "back to the tapes", o regresso da fraca qualidade de reprodução sonora. Mas parecia mais que tinham as frequências médias-altas (acima dos 1500 Hz) demasiado puxadas. Para ser sincero, as colunas do Passos Manuel passaram por colunas de feira, de festa de aldeola, de carrinhos de choque... Altamente, se não fosse a dor de cabeça que provocaram passados 40 minutos daquilo... Mas transbordaram muito mais ideias... como o "estou-ma cagar, eu quero é curtir o meu som independente e alternativo, ou o sou muito sensivel e tribal-pop-elétrico-barulho-música-díficil-não,não-e-não"! Pelo menos hoje!
Como já disse, estou a ouvir Animal Colective e parece-me que isto até nem é nada mau. É muito bom até, comparando com os Ariel Pink que hoje ouvi. E mesmo o Anthony Cole, que segue os Animal Collective na minha "playlist", me parece d'oiro-masterizado. Já para não falar do Anthony Rotther e de Apparat Organ Quartet...
Quando acabou o primeiro concerto o desdém pelo público acentuou-se, os quatro elementos sentaram-se em rodinha no palco durante três ou quatro minutos como se fossem fazer um piquenique, não sem antes agradecerem com o já habitual Hobreegahdow. Na suas declarações ao Blitz afirmam respeitar e compreender as posses que ficaram para nós, dos Beattles, do Chuck Berry, dos antepassados que falavam ao microfone explicando o que se iria passar a seguir, tipo: intervalo de 5 minutos para um cigarro ou não saiam dos lugares que o próximo concerto vai já começar. Saí arreliado sem saber se devia ou não abandonar a sala e fui reclamar da falta de profissionalismo ao que me responderam: -Eu respondia-te mas era demasiado chato... -e com o baixista calmo, que me disse que sabia perfeitamente que os agudos estavam exageradamente puxados... Fiquei muito irritado. Uma nota positiva para a apropriação das melodias pop típicas dos anos 60...

Signer (Carpark): "Mostrou que sabia das suas responsabilidades como músico." Temas bem produzidos, de boa estrutura, com boa equalização. Teve algumas falhas de comunicação com o técnico de som, o que o fez interroper a segunda música. Convidou uma moça que não afinava nem por nada para cantar com ele (os dotes vocais também não eram o seu forte) e o concerto acabou quando ele lhe pôs uma maraca na mão durante uma pausa da batida e ela começou a marcar um tempo que só existia na música da cabeça dela... a batida fixada reentrou, o Signer esperou dois compassos para ver se a rapariga atinava com o tempo e depois baixou o volume de todos os canais e disse adeus... Freakalhada sim. Mas não nas minhas músicas... boa.

Os terceiros não comento porque saí a meio, mas o Pedrito disse-me que foram os melhores da noite... Correu muito mal.
Ou então eu não estava melancólico e alienado de tudo o que penso saber.


Em Portugal temos tudo o que eles têm na Alemanha ou na Áustria ou nos Estados Unidos... E ainda nos temos. Temos pessoas dedicadas, talentosas, meninos certinhos, génios habitantes do underground, droga, temos melhor futebol, o mesmo software, temos computadores, livros em muitas línguas, também carregamos o peso da mão de obra barata e dos empresários corruptos. Mas temos mais sol que dá outra luz às câmaras amadoras. Somos mais relaxados. Também possuimos casas e caixas de ovos. Temos esferovite e fita-cola de dupla face. Temos bons estúdios para os mais exigentes que se alugam aos mais providos. Perfumes, T-Shirts, calças de ganga rasgadas, spray vermelho para pintar cães, a Media-Factory, Espanha aqui ao lado, distribuidoras, putos rasos, velhos do restelo, técnicos especializados, iliteracia e dislexia, catálogos alemães com material barato, baterias eléctronicas e adufes, discotecas, danceterias, salas de espectáculos que servem de modelo à nossa vida social, teatro, cinema, escolas, a necessidade de banalizar tudo o que nos rodeia. Somos donos da pior auto-estima e preferimos sempre importar muito.
Meus amigos (no irónico sentido da palavra) Fodei-vos porque a partir de agora e até mais ver só toco no Porto por muito e/ou se me apetecer muito, com direito a bebidas e guest-list à minha medida (e ainda nem sequer tenho um álbum editado). Continuai nas Gigis, nos Suplys, no Passos Manuel, nos Maus Hábitos, no Contagiarte, no Bazaar, no 31, no Hard Club a ouvir DJs. Força na queixa da falta de hipóteses que eu não vos as apresentarei (e sei-as). Dai com energia na coca para chegarem a esta auto-estima natural do Fundão, dançai de felicidade. Entrai na boa onda e criticai entre risos descontraídos as tomadas de posição. Façam a festa com menos um músico português. Acordem e ponham sempre a tocar um disco importado e subscrevam as actuais políticas de gestão cultural.
Choro a humildade dos músicos a sério. Perdoem-me mas eu não vivo disto e posso dar-me ao luxo de me estar nas tintas.
Ouvir dizer às pessoas mais próximas da produção de música em Portugal que isto não vai a lado nenhum acontece-me dia-sim, dia-não. Antes concordava. Agora, ainda mantenho razões de queixa começando pelas "arriscadíssimas" reinterpretações de Amália passando pelos revivalismos de António Variações e acabando nas electroniquices de Madredeus. Valha-nos deus... Não há plataformas nem estruturas que suportem os novos criadores, não há bom gosto, não há profissionalismo, o jazz está no mesmo sítio e continuamos a ouvir standards todos os dias ou o extremo oposto nas composições de fusão dura. Os músicos a sério (refiro-me àqueles que estudaram ou estudam música) não arriscam e até aos 25 anos pensam que ainda têm de solidificar muitos conhecimentos. E têm razão, mas não há nada que os proíba de arriscarem, e de ouvirem e fazerem outras coisas senão o que estudam... Estamos num tempo de permissividade, de transdisciplinariedade, e é do lado da permissividade que eu falo. Também do lado do meu senso.

Thursday, December 28, 2006

Desenvolvimento de um texto anterior

Os fenómenos mainstream são um sub-produto de sub-culturas. São um conjunto de re-fazeres, produtos tipo, de liberdades e convenções minoritárias. Diz-se, então, que os produtos globais, aqueles consumíveis pela massa desinformada dos contextos onde os produtos foram criados, são um ponto, passível de leitura “sem preocupações de causa e de de efeito” (citando de modo livre Heitor Alvelos). Autónomos porque podem ser lidos sem introduções nem epílogos, não recolhessem os seus produtores conclusões testadas nos mais restritos ambientes, não soubessem eles mais que muitos empresários da indústria do entretenimento que em vão tentaram criar uma disciplina chamada Marketing que não passa de uma introdução muito arcaica à economia da cultura.

Uma cave fechada a sete chaves não é senão um laboratório com mais impurezas mas menos falível que um teste de estúdio de uma multinacional. O estúdio é o laboratório que cria a fórmula, a cave é o país terceiro-mundista, em vias de desenvolvimento, que lhe serve a inspiração e confirma a atitude prometendo mercado. Não voltámos ao mesmo. Nos zeros, não podemos pensar que a zona de ensaios, a garagem, está isenta de moral ou consciência. Ou seja: o terreno intermédio que a ideia ocupa por si mesma não é alheio a uma série de mandamentos por escrever, subentendidos nos actos, nos modos, enfim, na cultura. Infelizmente existe a tendência defensiva tomada por muitos comunicadores que os faz virar para um posicionamento anti-global porque, aparentemente, os choques culturais parecem invalidar-nos todo um sofrido conjunto de valores construídos em realidades sociais isoladas, que até há pouco tempo estavam distantes. Prefiramos antes julgar como bom serviço o código por que nos vamos entendendo. Aquele que os produtores de cultura massificada disponibilizaram, aquele que decidimos usar e fomos enriquecendo. Quantos contos e fábulas perdidos num país nórdico não foram re-apresentados pela Universal City Studios? E o que seria da Alice e do País das Maravilhas se a Disney não nos pusesse a coisa em cassete e DVD?

Quem estuda comunicação não pode desinteressar-se pela problemática inerente à tradução da mensagem, ao meio que a veícula, como dizê-lo,,, …ao conjunto de novas possibilidades narrativas que aprendemos a fazer na passagem da conversação directa, diálogo ou debate (onde o entendimento contextual é colectivo), para a comunicação em que o afastamento entre o emissor e o receptor é dado adquirido a priori. No processo distanciado, o desconhecimento da autoria (desinformação inicial) e a dúvida presente até ao momento em que a reação é recebida (feedback que confirma o sucesso ou insucesso da transmissão) geram um imenso campo de actividade ainda pouco explorado no design português e na grande maioria dos produtos comunicativos portugueses. Este momento acarreta consigo a natural intensidade da espera entre o momento em que o grito para um vazio é lançado até ao momento em que ele regressa. Ele pode ou não ser enriquecido. Com menos poesia: quem ousa a fala, não deve falar por falar… Deve sim, arriscar consciente, compreendendo a responsabilidade que tem sobre a mensagem, percebendo os modos em que ela pode ser deturpada. Num cenário global, e contrariando em parte a ideia que McLuhan fazia do processo comunicativo, penso que o sucesso da transmissão da mensagem, não depende somente da análise correcta do meio. A satisfação do resultado visado pelo emissor prende-se mais ao tema e relevância da mensagem que ao seu desenho. Assim como uma carta sem interesse só não regressa porque o emissor lhe virou as costas no momento em que a lança. Vou tentar fazer uma sistematização do que falo, uma vez que sinto discrentes e sem precisão de ataque muitos daqueles que cultivaram e consolidaram as suas estratégias comunicativas, acções e ritos sociais antes das possibilidades “hiper-narrativas” potenciadas pela evolução dos tecnológica dos meios de comunicação contemporâneos. Estas distinções são beneficiadas porque são pensadas de modo lato, servis a uma composição de dois terminais ou a um universo de cinco mil terminais. Note-se que o sistema que aqui está descrito também não tenta especificar demasiado a sequência temporal dos momentos e menos dos processos que neles e deles decorrem.

diagrama_marrucho

Processo Comunicativo Banal

Entenda-se que qualquer um destes momentos possui poder de veto quanto ao diferimento do processo. O próprio meio pode amplificar ou anular o objectivo. Talvez seja essa uma das razões pela qual ganhamos confiança ao gravar as diferentes fases de um processo. É pelo menos por isso que eu favoreço a opcional publicação dos segredos em deterimento do agenciamento estatal ou privado da informação. Porque, apesar da petrificação que o caos que a liberdade de circulação de ideias irá causar numa fase inicial, o meio (em conjunto com o senso de cada comunicador) tratará de desviar as atenções das regras paradoxais pelas quais ainda pensamos que regemos este fenómeno. Talvez só a custo de uma intensa humilhação causada pela exposição publica possamos compreender a nossa natureza o propósito da comunicação. Pelo menos desse modo não se corre o risco do regresso ditatorial à maioria das civilizações. Esse perigo é eminente nos processos de confidencialização a gestores de informação que agora estão a decorrer. É-me impossível dar ao discurso sobre a troca de dados e comunhão de ideias qualquer atributo tautológico positivo se muitos ainda pensam que Liberdade de Imprensa, Sigilo, Educação, Religião, Segredo, Neutralidade da Rede, Iconoclastia, e Propriedade Intelectual não potenciam valores antagonistas e desentendimentos. Um dos maiores problemas da contemporaneidade, é precisamente a passividade da qual as massas dos países desenvolvidos se recusam a sair. O conforto da narrativa fechada é sempre mais sério e menos lúdico que a interactividade. Repare-se como os produtores de novas tecnologias se aperceberão do facto e como começarão em breve a debitar artigos interactivos cujos sistemas sejam controláveis. Fartos de hiper-actividade assistiremos descansados ao regresso aos circuitos fechados. Por uma questão de estilo.

Actualmente vivemos o registo mais intensamente que o próprio momento. É nele que compreendemos a maior parte da nossa existência. A fixação das situações vividas que nos coloca em nós próprios pelo confronto. Os jovens compreendem muito bem este processo melhor, porque o vivem há muito, e até agora, sem terem tido necessidade de lutar pela liberdade, foram educados paralelamente à explosão informativa e publicitária. Coisa das últimas 3 décadas. As próximas gerações saberão do que falo ainda melhor. Saberão que qualquer fixação pode ser reveladora demais, e usam esconderijos. O decorativismo tem por isso sido cada vez mais abordado por um conjunto de produtores portuenses não como o que o seu próprio nome indica, mas como um arranjo, aparentemente fútil, que se arma de pequenos signos que, mais que seleccionarem à partida o público, o agarram dentro dos interesses dele próprio. Os pormenores dizem agora respeito ao cerne da mensagem porque o objecto do criador do conteúdo ornamenta-se cada vez mais profundamente. Ainda assim a responsabilidade está nestes meandros tanto no emissor como no receptor. O receptor, que não deve apenas reclamar a informação como um direito (apesar de o ser) mas deve antes compreender o processo como um projecto conjunto do qual faz parte, pode contribuir para a criação de uma cultura auto-sustentável porque orgânica e fluída.

Neo-Emo: Rebenta-lhe as dobradiças com a Lasergun


Para começar:
Há cidades que criam movimentos e outras que os replicam. O mimetismo é uma inegável ferramenta de aprendizagem, mas o mais músico é mais pedagogo. Por isso aqui não temos lata para editar exercícios e criámos uma cena da qual nos orgulhamos.
A baixa do Porto foi a capital da Nova Emoção enquanto a de Lisboa é uma seca de importação ão ão porque os putos de lá ainda parecem os velhos da Alemanha. Porque ainda há quem nos desdenhe por sermos uma cidade em infância...

DSC05344
DSC05378
Imagem0082
DSC05078

!

1-Um festa verde a chorar.
2-Se há pessoas que são pagas para contar segredos, porque é que não os posso eu dar?
3-Qualquer dia esta merda arrebenta tudo.
4-Times New Roman.
5-Cool! Nice & Practical!
6-A arte não se ensina, aprende-se.
7-Não teve graça.
8-Coisas nas casas dos outros.
9-UAU!
10-Bom dia às 11 da noite.
11-Dizer mal é uma arte. Dizer mal de quem diz mal é artesanato.
12-Não dou a vida por ninguém excepto pelo meu irmão.
13-Eu faço o que quero com o meu cabelo...
14-Faz com a minha outra mão.
15-Isto é muito artístico!
...
por vários autores.



Desde a performance de André Sousa "Conferência: a rápida raposa castanha salta por cima do cão preguiçoso", onde foram explanados de modo formal os contextos histórico-socio-culturais que envolveram e vão envolvendo esta geração, que muito se tem dito em relação ao movimento Nova Emoção. O abalo inicial que sentimos depois daquela performance/conferência transformou-se de modo urgente numa mais apurada consciência daquilo que estamos a fazer. Era inevitável.
Por outros termos, todas as discussões sobre o movimento, realçaram a nossa essência.

É nos meandros de algumas das minhas conclusões que vou discorrer acerca da Nova Emoção.

heidotmark

Antes de mais, parece-me importante afirmar. Afirmar por exemplo com coragem e consciência que vamos tentar apagar este lume brando com gasolina! Assim, por exemplo... uma das diferenças entre a Nova Emoção e os movimentos modernistas, é que os do início do século foram muitas vezes nomeados a posteriori, com ironia, irritada pelo conteúdo óbvio das cenas. Nós não tínhamos mais que uma faixa áudio produzida em 2001 chamada El Hit. Uma mão cheia de minutos musicais não fazia um movimento. Sabíamos disso e fomos a pouco e pouco enchendo o termo de carga simbólica com pequenos objectos, com músicas emotivas, posters espectaculares, desenhos grotescos, afirmações robustas, actuações amadoras, pinturas graciosas, coreografias rápidas e outras artes bem bonitas. Ensaiámos o nosso gosto e com isso recriámos o de alguns outros. Penso que de todas estas áreas, as que se encontram mais desenvolvidas, as que de momento criam mais produtos/ilustração da Nova Emoção, são o design gráfico e a música. Já seria possível manchar muitos píxeis dum qualquer blog com teoria aprofundada sobre isso, coisa que não tentarei fazer agora.

Acho também que ela pode ser o fim assumido do pós-modernismo. A Nova Emoção. Porque até pode bem ser! Contradiga o discordante, mas antes passo a explicar a minha estória da História:
Acho que a Nova Emoção nasce com atitude consciente. Consciente de que se está a fazer História em tempo real. Porque esse ramo não passa de um conjunto marcações, ela só existe porque é uma gravação/tradução humana da realidade vivida, e há vidas muito diferentes.

Ainda há História. Porque ao contrário do que o ícone da cultura pós-moderninsta pensava, não é difícil ficar gravado. Só 15 minutos seriam um luxo. Agora é doutra História que falo, é noutra que vivemos e, se tudo fica enunciado, não é despropositado acreditar que as ferramentas multimédia disponíveis ao cão de Pavlov dessacralizam o próprio conceito de História. O anonimato será cada vez menos pelo nosso tempo em frente. "Eu quero 15 minutos de anonimato", diz que disse. Por enquanto é possível, mas penso que por pouco tempo. Assim decidimos contar as coisas à nossa maneira. Estamos a brincar aos movimentos e grupos de artistas porque já estamos um pouco nisso e construímos à nosso volta um mundo de representações bués da contemporâneas, a nossa coisa, é a coisa. Digo brincar porque como num jogo respeitamos as regras. As das vanguardas de há cem anos e as de há 10 anos.

Os mercados estão a mudar porque os meios estão a mudar e parece-me que a cada MySpace criado, a cada NetLabel, a cada Opensource coisa, a cada dia que passa se reduzem as possibilidades de Hits... A massa tornou-se crítica e menos massa. De hoje em diante começam os útimos dias da história massificada. Da corrente principal absorvente, como diziam os velhos do restelo o Pop é finalmente alternativo e cool. Prova disso é que hoje eu não vi o mesmo programa que tu, nem ouvi a mesma música que tu. Nos 80's toda a gente ouvia Michael Jackson pelo menos uma vez por dia. "10 Milhões de discos vendidos na primeira manhã!" Querias... As redes culturais estão num período de adapatação e as maiores já começam a ser nichos de 20.000, ou 100.000 mil. Auto-sustentáveis. Lá chegaremos...

Nos dias que correm, por incrível que possa parecer, quando se fala em formação cultural, na rádio e na TV, imprensa, etc., pensa-se logo em teatro, música clássica, romances literários, entre outras coisas extremamente particulares aos hábitos de classes urbanas instituídas por centenas de anos domínio social. Apesar de reconhecer que o pós-modernismo recorreu à cultura popular, também reconheço que não considerava esse lado aparentemente banal da vida, laboratório/campo de trabalho e acção. Nós sabemos que vamos conseguir que a pista de carrinhos de choque, os CD-ROMs, toques reais e polifónicos sejam das primeiras coisas que venham à cabeça duma pessoa normal ou anormal quando utillizarmos a expressão: formação cultural: significando construção de cultura. Podem dizer para aí à vontade que isto já foi feito, pela Madonna por exemplo, (é com 2 Énes não é?) que surgiu dentro dos domínios da "cultura de ponta", alternativa, desconhecida, que tocou como performer no Studio 54 e que agora é Diva Pop (qual disco!) regente do barco que navega a corrente principal e que nós somos só parte de mais um ciclo, não passaríamos de coisa menor. Como menor? Como menor se só ela, e mais ninguém, é que é?


A Nova Emoção não servirá para engrandecer aquilo que já se sabe o que é, mas também não servirá para deitar abaixo todo o instituído. Ela faz-se mais dos momentos de que vamos gostando mas que não têm grande nome, ou que não têm força para existirem enquanto cultura. "A verdadeira revolução não consiste em derrubar os que caminham, mas antes em levantar os prostrados ou qualquer coisa assim parecida."
A Nova Emoção é o gel que agrega estes pequenitos clubes jamba num penteado cool, numa de-coração aparentemente supérflua, numa falsa leveza que deixa o homem de cultura incomodado. Atenção caríssimos estranhos, não gostamos só de coisas consideradas foleiras nem gostamos todos das mesmas coisas. No entanto, na cultura contemporânea, não existe terreno mais fértil que o popular. É uma zona maléavel, de memória curta e sem catálogos, porque quem nela actua e quem a mais usa não costuma ter formação clássica, não sentindo directamente a pressão que os meios de comunicação exigem ao produtor de informação e entretenimento. Os avanços tecnológicos sentidos nas últimas décadas (final de anos 80, anos 90 e início dos 00's) permitem que se comunique como se não valesse a pena. Pergunta o astuto interessado: -Então, o que diferencia a Nova Emoção de um Emanuel ou duns U2?
Respondo: -Contexto, consciência crítica, elos e acima de tudo público activo. Público participante, tido como igual consumidor/produtor/promotor de conteúdos...

Depois de Coimbra ficou claro que somos na grande maioria, de outros sítios que não o Porto. Estudantes do ensino superior que não fazemos o habitual percurso do secundário, escola-casa-casa-escola, mas que ao invés nos fomos juntando em horário pós-laboral, como novas famílias. Compreendemos definitivamente que o Kids não é um dos nossos filmes de referência mas que um Querida encolhi os Miúdos, ou um Regresso ao Futuro 2 cumpriria melhor esse papel. Somos agora conterrâneos, co-existentes, comunicativos por necessidade e por vontade. Amigos preocupados uns com os outros, conscientes estamos a criar discursos "A NE revê-se no homem cosmopolita, apreciador quer de cocktails e inaugurações, como de tascos e cartadas." Praticamos pirataria porque somos contra a contenção de informação, e porque acreditamos que ela deve estar disponível a todos.
Também se diz no café: "Se quiseres espicaçar um gajo normal sem irritar um criador, chama imbecil ao criador, se quiseres irritar um criador sem irritar o gajo normal, diz-lhe que criaste um movimento". Como o Jazz, que se desenvolveu com imensos sub-movimentos (New Orleans, Swing, Bebop, Hard Bop, Cool...) dentro da mesma linguagem mãe, a Nova Emoção Porto já tem contra-sub-sobre-movimentos, Há aí uma certa tendêcia, Pimba Supersónico, Power Pop, Nova Fase, Lusitanó-espacial... Uns vão-se encher de significado outros ficarão pelo nome. O importante é que sabemos que estamos a abrir caminho porque nos sentimos livres, como qualquer artista ponta-de-lança deve ser. Já McCoy Tyner, pianista no quarteto de John Coltrane, quando questionado se sabia a importância do que estavam a tocar nos anos 60, respondeu que sim. Sem isso não há coragem, há só virtuosismo.


back

Em Coimbra também se citaram intérpretes, porta-vozes da Nova Emoção. Ofereceram-se Bongos e fez-se uma corrida à Tom Sawyer, disseram-se coisas através das quais, nos fomos elucidando, falou-se no Renault 5, e no Power Point. Curiosamente não se ouviu uma única música e foi aí que tudo começou. Hoje posso dizer que Nova Emoção é um adjectivo tão válido como a Arte. Próprio do Neo-Emotivo é já a frase: Istaqui é muitartístico. Bué da Arte! Bem fez quem ficou em casa no sábado a ver o Regresso ao Futuro 2, quem deve ter compreendido mais um pouquinho sobre isto.

Thanx 4 the Add! Eles lá chamam à Nova Emoção, Electrónica-Euro-Crunk-Disco-Break-Beat-Electro-Pop. Estúpidos.

A parafernália gráfica é outra vez pós-modernista, falando com a forma sobre a forma, desengane-se o amador do sentido desregrado do termo. Muitas cores, desenvolvimentos divertidos das pretensões normativas que decorreram dos movimentos quadrados do início do século, intuição no regresso ao desenho, tipografia cuidada... Em suma, uma gama de utensílios visuais que não se faz bem com desbunda acrítica, mas que ao invés, depende de uma rica memória imagética e de uma imensa dose de conhecimento histórico do Design, entendido enquanto disciplina criativa e parte integrante da construção da cultura. Ao mesmo tempo que a Nova Emoção se tenta impor como o primeiro movimento artístico urbano caraterístico do Porto, representativo de um estado de espírito duma cidade em plena infância, Paris e Londres, para espanto dos casmurros que desvalorizam a importância da nossa querida e periférica cidade, também se vestem das mesmas cores globais traduzidas às suas idiossincracias. Os meninos crescido e menos crescidos que forem das lá net-salto vão atirar o esperado para o ar: "Mas lá é que é mesmo a sério". A esses uma cuspidela é perda de saliva. " I spit in yo face", avante...

Não nos copiam nem nos idolatram, nem nós lhes vestimos a pele. Já os vamos conhecendo melhor do que eles a nós, mas que outra coisa seria de esperar se nós nem sequer fomos fixados, comentados ou apenas citados em nenhum suporte mediático nacional ou local. Lá também trataram de criar a banda sonora para os seus próprios cartazes, para os seus vídeos e códigos de indumentária. Depois da assunção das limitações ferramentas dos anos noventa, os primeiros cinco anos dos 00's aparecem pintados em gradação cromática, simulações de tridimensionalidade, representações de sombras e criações (apenas e só) aproximadas à difusão de luz real.

As linhas gráficas ou os logos do Google, da Apple, MacOS Panther, Windows XP, Tiger, Macromedia Studio MX, Adobe CS, Big Brother, entre outros tantos milhares, reflectem a nova presunção de encantamento visual. Poderemos então encarar a coisa como apenas mais um renascer do gosto? Será que isso é suficiente? Eu acho que não. Eu acho não porque há mais na vida que a rendição aos terminais de recepção de informação. Que me adianta gostar muito da música dos parisienses, se não posso lanchar com eles daqui a pouco, ou se me é difícil trocar amostras audio com eles? É precisamente aqui que nós conseguimos manter o movimento fora dos grandes mercados da música. O que não é só bom, porque assinar contrato com a Virgin resulta quase sempre em meios materiais e financeiros para produzir mais e melhor. Assim nós estamos a fazer tudo de raíz: música, editoras, sedes, estúdios, distribuidoras, design, arte, público, enfim, movimento.
De volta a Paris, Londres e Nova Iorque... via web ...numa viagem aos sítios certos do Myspace e encontramos os amigos, filhos de Daft Punk, entre aventuras locais e o mercado global, aquele que também é fez a nossa estética. Surkin, Teki Latex, Para One, Tacteel, Lo-Fi-Fnk, Feadz e a Uffie, o NiYi, a Cassette Playa... A música rende-se ao clube de dança, pensada para funcionar tanto a pares como a três ou quatro ao mesmo tempo, orgias de som. Mas das já banais reinvenções do Disco, nos "one man shows" sobressai o pensamento de dança individual, com bases na construção de música para raves, música cerebral e física, tudo com um toque de choro entre sorrisos e muita Pop, Pop, Pop. Se eles são as crianças dos 90's nós somos os pré-adolescentes dos 00's. Vale a pena espreitar. "Ha mas eles é são, e tal..." -I spit in your face and you still owe me saliva.




Cassette Playa
Teki Latex
Para One
Surkin
Ed Banger
Fluokids

Oh my god there's a riot in Belgium and I don't wan to go to your house no more, cause it's the same shit again, every single night. hmmm...

Às vezes, quando me tratam menos bem, começo a pensar que devia deixar as pistas de dança entregues aos technos alternativos e electro-houses do costume e deixar de me chibar todo.
Agradeçam e saquem aqui aqueles 8 megas de MP3 de Ana: Isto Não é só Pimba

Et voilá...

Pub: Compra bem! Compra Muito! Compra Ástato!

Wednesday, December 27, 2006

Digital Music and Commerce (First Edition)

A video documentary by João Marrucho.

You can get the video (CDr 20 min., 400x300, Motion-jpeg 2, 44,100 khz, stereo), by sending an e-mail, to joaodaconcorrencia at gmail dot com. Identify yourself, correctly: (name, adress...). Feel free to copy, quote, translate and spread the information contained on this documentary.
Legendado em português, a partir de Janeiro de 2006, espero.



The most recent events in music industry and all other cultural content production, editing, and distribution have tended to use legal means trying to control the way information and ideas spread. In 1998 the Digital Millennium Copyright Act (DMCA) was written in the United States of America in order to up-date the existing regulation for this mechanisms.
The spread of personal computers has allowed to the common user to intervene directly on this processes. The effort to maintain an equilibrated market (that ruled over the last century) has turned illegal what was before a civil right. Now, instead of the fair registration obligation created during the industrial revolution users are also forbidden from changing the product as if they were the cemetery for the information. What's happening?


The Big Idea or The Big Deal?

Toshiba_2510

In the 1970's decade, photocopiers spread, and alerted the book industry to a problem they didn't have to face before. People could possess the information contained on their books, magazines and newspapers writing, editing, design and distribution. This new sense that the idea duplication was now in other hands, that not the ones from the publisher, originated a conservative copyrights movement that didn't stopped until now.
Sony Betamax case, in 1984, was an important judicial moment that made video reproduction a common practice. In that situation, Universal City Studios sued Sony for creating a recording object that had more illegal uses than legal purposes. Sony's lawyers, supported their argumentation turning the responsibilities to the Sony user. Although Universal City Studios had documents proofing the opposite, the court ruled in favor of Sony.
Like guns are sold, so can video recorders and blank video tapes be.

betamax


The DMCA

The Digital Millennium Copyright Act is a USA treaty that turns into criminal act "to distribute, import for distribution, broadcast or communicate to the public, without authority, works or copies of works knowing that electronic rights management information has been removed or altered without authority". It also holds responsible for such, the Internet Service Providers and software providers that can access the user information. And now, they all can. USA Congress has given copyright holders expanded powers similar to those granted to government officials under the USA PATRIOT Act. This means that whether or not you use peer-to-peer file-sharing programs, the recording industry (or anyone who claims to be a rights-holder) can easily gain access to your personal information, without a judge's oversight.

Despite this intents, DMCA castrates a giant amount of scientific researches on mathematics, software, and many other multi-media areas. By banning all acts of circumvention, and all technologies and tools that can be used for circumvention, section 1201 grants to copyright owners the power to unilaterally eliminate the public’s fair use rights. Already, the music industry has begun to deploy "copy-protected CDs" that promise to reduce consumers’ ability to make legitimate, personal copies of music they have purchased.


This kind of protective measures are taking place at the same rate that the worldwide web users work in the opposite way. Open source software, freeware, peer2peer, weblogs, and many other private sites are working hard, and maybe faster, to keep creativity out of this chains.
Opsound, for example, is an experimental record label and open sound pool organized through the opsound.org website. Opsound explores the possibilities of developing a gift economy among musicians, borrowing from the model of the open source software community. Most younger musicians would think that there is no way for making a living out this. The big music companies are, in fact, living a selling crisis. But there is a way to outcome all the small difficulties that made them so conservative. Take Universal City Studios, that stood against Sony blank video tapes, as an example. Universal City Studios increased its business volume from 5 million dollars to approximately 18 million dollars by selling the same technology they sued 20 years before. We can make an analogue analysis for the recent developments. Electronic Frontier Foundation has provided a list of ways to make business without neglecting the fair use of copyrighted material:
I'll pass it along:

Voluntary Collective Licensing
It sounds obvious: major labels could get together and offer fair, non-discriminatory license terms for their music. This is called "voluntary collective licensing," and it has been keeping radio legal and getting songwriters paid for 70 years. It protects stations from lawsuits while collecting payment for the songs they play. (...)
Individual Compulsory Licenses
If artists, songwriters, and copyright holders were required to permit online copying in return for government-specified fees, companies could compete to painlessly collect these fees, do the accounting, and remit them to the artists. The payment to each artist need not directly reflect what each consumer pays, as long as the total across all artists and all consumers balances. (...)
Ad Revenue Sharing
Sites like the Internet Underground Music Archive, EMusic.com, Soundclick, and Artistdirect.com provide an online space for fans to listen to music streams, download files, and interact with artists. In the meantime, these fans are viewing advertisements on the site, and the revenues are split between the site and the copyright holders.
P2P Subscriptions
P2P software vendors could start charging for their service. Music lovers could pay a flat fee for the software or pay per downloaded song. The funds could be directed to artists and copyright holders through licensing agreements with studios and labels or through a compulsory license. In 2001, Napster was considering such a subscription service. Recent attempts at a subscription service (such as Apple's iTunes Music Store) show that consumers are willing to pay for downloaded music.
Digital Patronage and Online Tipping
Direct contribution from music lovers is a very old form of artist compensation. As content has moved to digital form, so has the form of payment. With an online tip jar such as the Amazon Honor System, artists can ask for donations directly from their websites, in amounts as small as one dollar or one euro.
Patronage sites such as MusicLink have also emerged, which allow consumers to seek out the musicians and songwriters they'd like to support. Either way, consumers are given an easy, secure method to give directly to the artists they admire.
Microrefunds
Brad Templeton introduced the interesting idea of making "opt-out" the default for paying for copyrighted works. The system, called "microrefunds," would collect small fees for each copyrighted work accessed and total them into a monthly bill.
Charges that seemed too high or were for songs the consumer did not enjoy could be revoked.
Bandwidth Levies
Several people have nominated ISPs as collection points for P2P. Every Internet user gets web access from an ISP, and most have a regular financial relationship with one as well. In exchange for protection from lawsuits, ISPs could sell "licensed" accounts (at an extra charge) to P2P users. Alternatively they could charge everyone a smaller fee and give their costumers blanket protection.
Media Tariffs
Another place to generate revenue is on the media that people use to store music, also known as a "media tariff." Canada and Germany tax all recordable CDs and then distribute the funds to artists. In the U.S., they have royalty-paid recordable CDs and data CDs. It's difficult to pay artists accurately with this system alone, but other data (statistics from P2P nets, for instance) could be used to make the disbursement of funds more fair.
Concerts
Tried and true, concerts are a huge source of revenue for musicians. Some, like the Grateful Dead and Phish, have built careers around touring while encouraging fans to tape and trade their music. P2P dovetails into this model nicely, providing a distribution and promotion system for bands who choose to make money on the road.

Previous experiences have shown that there is the possibility for taking cultural products into the market without depending from a bigger system capable of supporting the musicians, video artists, software makers and by that helping not to invalidate free speech. For instance, Blender is an open-source software for modelling and rendering three-dimensional graphics and animations. Originally, the program was developed as an in-house application by the Dutch animation studio NeoGeo. The program was initially distributed as proprietary software available at no cost (freeware) until NaN went bankrupt in 2002. On July 18, 2002, a Blender funding campaign was started by Ton Roosendaal (creator of this program) in order to collect donations and on September 7, 2002 it was announced that enough funds had been collected and that the Blender source code would be released in October. Blender is now an actively developed open source program by the Blender Foundation.

As you can see there are many options available in the digital world to make sure that artists receive fair compensation for their creativity."

Copyright legislation was created to protect and insure cultural evolution and yet, it is turning against its original purposes. Some, as the anti-copyright movement, refuse to debate more than the nature of ideas. The classic argument for intellectual property is that protection of author and creator's rights encourages further creative work by giving the creator a source of income.

Those against copyrights suggest that intellectual property does not behave like material property.
If someone gives you a physical object he may no longer have use or control of that thing, and may ask some payment in return. But when you give you an idea, you lose nothing. You need nothing in return.

In fact, the copyright law can be perverted to a ridiculous point. Some strange things happened due to this legal obligations:
"The Eiffel Tower's likeness had long since been part of the public domain, when in 2003, it was abruptly repossessed by the city of Paris. SNTE, the company charged with maintaining the tower, adorned it with a distinctive lighting display, copyrighted the design, and in one feel swoop, reclaimed the nighttime image and likeness of the most popular monument on earth. In short: they changed the actual likeness of the tower, and then copyrighted it." Even more frightening, on July 6, 2001 Ph.D. student after giving a presentation called "eBook's Security — Theory and Practice", was arrested by the FBI as he was about to return to Moscow and charged with distributing a product designed to circumvent copyright protection measures, under the terms of the Digital Millennium Copyright Act.

Another curious case is the one from Negativland:

nobiz_cover

Negativland is an experimental music and sound collage band which originated in the San Francisco Bay Area in the late 1970s.
In 1991, Negativland released a single with the title "U2" displayed in very large type on the front of the packaging.
The songs within were parodies of the group U2's well-known song, "I Still Haven't Found What I'm Looking For", and included extensive sampling of the original song. The song "The Letter U and the Numeral 2" features a musical backing to an extended profane rant from the well-known disc jockey Casey Kasem:

U2's label Island Records sued Negativland claiming that the "U2" violated trademark protection, and the song itself violated copyright protection. Island Records also contended that the single was an attempt to deliberately confuse U2 fans, then awaiting Achtung Baby.

Funds exhausted, Negativland settled out of court. Most copies of the single were recalled and destroyed. By the mid-1990s, rap had made authorized sampling more common in mainstream music, but the single "U2", for which Negativland did not obtain clearance to use U2 samples, is still illegal to sell in the United States, but is available for free download from Negativland's official web site.

U2 band members were not concerned with this subject and when contacted by Negativland, they even assumed not to know anything about the suing in process.

Public opinion counts, and what's happening in America will probably not happen in the rest of the world.
Japan is a one in a million case. Knowing from its huge consume fever and market possibilities, big electronic enterprises like Apple or Microsoft are now selling MP3 at $4 per song. In USA and Europe the selling price is rarely above $1 or €1. This does not constitute a big surprise when we know that one in each three japanese consumers buys an average of 10.000 original CDs every year. Japanese young people even admit that downloading isn't a common practice. Most of them doesn't get from the web more than mobile ring tones.

Digital Music is now in the center off all this subjects and we may even consider its producers and distributors as the principal responsible entities for the new commercial forms for this business. Nowadays, editing contents has a new democratic meaning. Music in digital formats is in some cases being treated like on-line real-time updated information. Generative works are getting more and more common and lots of web-based platforms, like Opsound and Discogs, are following the Wikipedia models. Copy-editing is the new job that competes the new cultural contents providers to perform. DeeJaying, bootlegging and remixing are now the words for copy-editing in the music scene, and it's mission is as important, and maybe more pertinent, than the actual excess of original producers.

Public domain